{"id":10027,"date":"2023-07-06T14:35:36","date_gmt":"2023-07-06T14:35:36","guid":{"rendered":"https:\/\/tvnativoos.com.br\/wfe\/?p=10027"},"modified":"2023-07-06T14:35:37","modified_gmt":"2023-07-06T14:35:37","slug":"ze-celso-martinez-correa-morre-em-sao-paulo-aos-86-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvnativoos.com.br\/wfe\/ze-celso-martinez-correa-morre-em-sao-paulo-aos-86-anos\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa morre em S\u00e3o Paulo aos 86 anos"},"content":{"rendered":"\n<p>O dramaturgo havia sido internado na UTI do Hospital das Cl\u00ednicas desde a manh\u00e3 desta ter\u00e7a, ap\u00f3s sofrer queimaduras devido a um inc\u00eandio em seu apartamento<\/p>\n\n\n\n<p>Ao completar 80 anos, em 30 de mar\u00e7o de 2017, o diretor&nbsp;Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa&nbsp;sentenciou categ\u00f3rico que n\u00e3o queria mais nada para si mesmo, estava satisfeito em sua individualidade. \u201cEu gostaria de viver mais uns dez anos e quero tudo para o teatro\u201d, afirmou, iluminado pelo sol da tarde de outono que entrava pela janela lateral do Teatro Oficina. Z\u00e9 Celso falou como se aquilo fosse uma novidade. N\u00e3o, n\u00e3o era, afinal, desde o final da d\u00e9cada de 1950, quando abandonou a faculdade de direito para defender suas ideias no palco, era s\u00f3 nisso que ele pensava, no teatro.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi assim at\u00e9 o fim. Ator, diretor, dramaturgo e militante das artes e da pol\u00edtica,\u00a0Z\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa morreu aos 86 anos\u00a0em S\u00e3o Paulo, nesta quinta-feira, 6,\u00a0depois de sofrer graves queimaduras em um inc\u00eandio\u00a0na manh\u00e3 desta ter\u00e7a, 4, no seu apartamento, no bairro do Para\u00edso, onde vivia com o marido, o ator Marcelo Drummond. A informa\u00e7\u00e3o foi confirmada pelo ator Pascoal da Concei\u00e7\u00e3o, amigo de Z\u00e9 Celso<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em Araraquara, ele foi criado em uma fam\u00edlia de sete filhos por uma rigorosa m\u00e3e descendente de espanh\u00f3is, de sangue quente, e um pai d\u00f3cil, amante dos livros e do cinema, que o levava na inf\u00e2ncia para ver os filmes.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro garantido passava pela advocacia e, em um primeiro momento, o rebelde Z\u00e9 Celso acatou uma tentativa de estabilidade profissional, como ditava a cartilha de sua gera\u00e7\u00e3o. Mas foi na faculdade do Largo do S\u00e3o Francisco que tudo come\u00e7ou ao frequentar o Centro Acad\u00eamico 11 de agosto e cruzar com dois colegas de faculdade, o carioca Renato Borghi e o mineiro Amir Haddad, que, junto dele, fundariam em 1958 o Teatro Oficina. Tratava-se da ambi\u00e7\u00e3o de fazer um movimento diferente como respostas \u00e0s influ\u00eancias europeias do Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia (TBC) e o nacionalismo exacerbado do Teatro de Arena.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros textos montados s\u00e3o &#8220;Vento Forte para Papagaio Subir&#8221; (1958) e &#8220;A Incubadeira&#8221; (1959), de fortes tintas biogr\u00e1ficas. Ficaria dif\u00edcil nas d\u00e9cadas seguintes imaginar Z\u00e9 Celso, de terno, gravata e toga, exercendo nos tribunais o of\u00edcio dos diplomados no Largo S\u00e3o Francisco. A l\u00e1bia comum aos advogados, no entanto, nunca o abandonou e se tornou uma de suas maiores qualidades ao defender sua obra com base em discursos pol\u00eamicos e inovadores. Sempre conectado \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es internacionais, Z\u00e9 Celso colocou o Oficina no centro da vanguarda brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1963, o grupo conheceu o seu primeiro grande sucesso com&nbsp;Pequenos Burgueses,&nbsp;pe\u00e7a do dramaturgo M\u00e1ximo Gorki que estabelece um di\u00e1logo entre a R\u00fassia anterior \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o e o Brasil \u00e0s v\u00e9speras de um golpe militar. Com a ditadura instaurada, Z\u00e9 Celso persegue temas pol\u00edticos em&nbsp;Andorra, texto do su\u00ed\u00e7o Max Frisch montado em 1964, em que ressalta o acossamento dos regimes autorit\u00e1rios, com Renato Borghi e Miriam Mehler como protagonistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A consagra\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no mergulho do universo brasileiro e antropof\u00e1gico do escritor Oswald de Andrade. &#8220;O Rei da Vela&#8221;, pe\u00e7a escrita pelo modernista em 1937, permanecia in\u00e9dita nos palcos e foi encontrada por Borghi em um antigo livro que mofava na estante. Os dois viram naquela atual\u00edssima cr\u00edtica ao capitalismo disfar\u00e7ada de alegoria a melhor resposta para os militares que endureciam cada vez mais o regime.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Rei da Vela&#8221; estreou em 29 de setembro de 1967 e detonou a explos\u00e3o tropicalista que tinha come\u00e7ado a ser desenhada pelo filme &#8220;Terra em Transe&#8221;, de Glauber Rocha, lan\u00e7ado em maio, e atingiria o p\u00fablico da m\u00fasica em 1968 com o disco Tropic\u00e1lia ou Panis et Circenses, capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de tamanha repercuss\u00e3o, Z\u00e9 Celso n\u00e3o poderia dar um passo que fosse para tr\u00e1s e, na \u00e2nsia de superar a transgress\u00e3o, monta &#8220;Roda Viva&#8221;, pe\u00e7a in\u00e9dita do jovem compositor Chico Buarque, que ironizava os bastidores do showbiz tratando de um cantor que cai em desgra\u00e7a depois de ficar famoso.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor esqueceu das alegorias de &#8220;O Rei da Vela&#8221; e partiu agressivo, inclusive, para cima da plateia. Os atores avan\u00e7avam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s poltronas, despeda\u00e7avam um f\u00edgado de boi cru em cena e faziam provoca\u00e7\u00f5es religiosas que, desde a estreia, em janeiro de 1968, no Rio de Janeiro, escandalizaram o p\u00fablico e abriram os olhos dos \u00f3rg\u00e3os repressores. Em julho do mesmo ano, na temporada paulistana, homens encapuzados e armados de cassetetes invadiram o Teatro Ruth Escobar e espancaram os atores. Mais um atentado seria registrado em Porto Alegre, com o sequestro de artistas, sepultando a carreira do espet\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em busca de uma m\u00ednima tranquilidade, nem que fosse para exerceu seu of\u00edcio, Z\u00e9 Celso recorre a duas obras do autor alem\u00e3o Bertolt Brecht,&nbsp;Galileu, Galilei&nbsp;e&nbsp;Na Selva das Cidades, em um retorno \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o de uma dramaturgia cerebral.<\/p>\n\n\n\n<p>A pacifica\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, dura pouco tempo e, depois do contato com grupo americano The Living Theater, o diretor rompe de vez com a palavra em nome de pe\u00e7as de car\u00e1ter ritual\u00edstico, como &#8220;Gracias, Se\u00f1or&#8221; (1972), que geram uma cis\u00e3o no pr\u00f3prio Oficina com a sa\u00edda de, entre outros, Renato Borghi. O rompimento abala fortemente Z\u00e9 Celso e, em 1974, depois de ser preso e torturado, ele parte da para o ex\u00edlio entre Portugal e Mo\u00e7ambique. De volta ao Brasil em 1978, mesmo diante da perspectiva de redemocratiza\u00e7\u00e3o, o artista atravessa a d\u00e9cada de 1980&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A volta \u00e0 cena se d\u00e1 em 1991 com &#8220;As Boas&#8221;, adapta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a &#8220;As Criadas&#8221; do franc\u00eas Jean Genet, em que, al\u00e9m de dirigir, contracena com Raul Cortez e Marcelo Drummond, seu novo parceiro de vida de arte.<\/p>\n\n\n\n<p>A pot\u00eancia criativa volta a explodir com for\u00e7a em &#8220;Ham-Let&#8221;, vers\u00e3o muito particular da trag\u00e9dia de Shakespeare que ganha encena\u00e7\u00e3o no rec\u00e9m-reformado Teatro Oficina, em uma est\u00e9tica provocativa e visceral que marcaria a sua trajet\u00f3ria dali para frente. Em 1996, durante uma sess\u00e3o de &#8220;As Bacantes&#8221;, o cantor Caetano Veloso foi arrancado da plateia e despido pelos atores. As pe\u00e7as do Oficina, que comumente duravam mais de seis horas, poderiam gerar desconforto aos conservadores, mas exerciam profundo fasc\u00ednio em quem estava disposto a uma experi\u00eancia teatral radical.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos projetos mais ambiciosos de Z\u00e9 Celso atravessou a primeira d\u00e9cada de 2000, a transposi\u00e7\u00e3o para os palcos do \u00e9pico &#8220;Os Sert\u00f5es&#8221;, romance de Euclides da Cunha. Dividida em &#8220;A Terra&#8221;, &#8220;O Homem&#8221; e &#8220;A Luta&#8221;, a trilogia cruzava fragmentos da obra original, cr\u00edticas \u00e0 viol\u00eancia social no interior do Brasil contempor\u00e2neo e altas doses de ironia em rela\u00e7\u00e3o a celebridades, principalmente o apresentador Silvio Santos.<\/p>\n\n\n\n<p>O dono do SBT vivia, ent\u00e3o, o auge da sua disputa com Z\u00e9 Celso em nome do terreno vizinho ao Teatro Oficina em que desejava construir um shopping center. O embate come\u00e7ou em 1980 e nunca foi solucionado \u2013 o fato \u00e9 que o diretor nunca economizou discursos e estrat\u00e9gicas para defender o entorno do seu teatro e parece ter vencido Silvio Santos no quesito teimosia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ciclo revisionista marcou a carreira de Z\u00e9 Celso em seus \u00faltimos anos. Em 2017, uma impactante remontagem de&nbsp;O Rei da Vela&nbsp;celebrou as cinco d\u00e9cadas da estreia do espet\u00e1culo com o mesmo Borghi \u00e0 frente do elenco e, diante do pa\u00eds politicamente polarizado, o diretor investiu em uma releitura de Roda Viva no ano seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o de 2022, aliviada a pandemia, Z\u00e9 Celso colocou no palco sua vers\u00e3o de &#8220;Esperando Godot&#8221;, investida na obra de Samuel Beckett, como met\u00e1fora para a paralisia de muitos setores diante dos desmandos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O mesmo cen\u00e1rio serviu de inspira\u00e7\u00e3o para o espet\u00e1culo Fausto, de Christopher Marlowe (1564-1593).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre agosto e setembro do ano passado, no clamor da elei\u00e7\u00e3o que reuniu Bolsonaro e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva na disputa presidencial, Z\u00e9 Celso colocou em cena a dicotomia entre o bem e o mal. \u201cCriamos um Fausto brasileiro fazendo a travessia, que \u00e9 essa grande transforma\u00e7\u00e3o de sair de uma pandemia e de um governo que colocou o Brasil no baixo cal\u00e3o e esperar por dias mais democr\u00e1ticos\u201d, definiu Z\u00e9 Celso, em&nbsp;entrevista&nbsp;ao&nbsp;Estad\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo espet\u00e1culo criado e protagonizado por Z\u00e9 Celso, no entanto, se deu em torno de um epis\u00f3dio de sua vida real. Na noite de 6 de junho, o diretor oficializou a uni\u00e3o com o ator Marcelo Drummond, companheiro h\u00e1 37 anos, em uma grande festa no Teatro Oficina que reuniu centenas de convidados, entre amigos, artistas, pol\u00edticos e personalidades ligadas \u00e0 cultura brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>As cantoras Marina Lima e Daniela Mercury interpretaram respectivamente as can\u00e7\u00f5es &#8220;Fullg\u00e1s&#8221; e &#8220;Terra&#8221;, as atrizes Bete Coelho e Leona Cavalli realizaram performances e a bateria da escola de samba Vai-Vai terminou a celebra\u00e7\u00e3o com todos os convidados aos gritos emocionados de \u201cevo\u00e9\u201d, a sauda\u00e7\u00e3o teatral que evoca Baco, o deus dos vinhos e das festas, uma representa\u00e7\u00e3o do que Z\u00e9 Celso representou \u2013 e continuar\u00e1 representando \u2013 na cena brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Se inscreva em nosso canal do\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@tvnativoos\">youtube.com\/@tvnativoos<\/a><\/strong>, curta nossa p\u00e1gina no\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/tvnativoos\">facebook<\/a><\/strong>,\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tvnativoos\/\">instagram<\/a><\/strong>\u00a0e veja nossa programa\u00e7\u00e3o ao vivo pelo canal 6 da Claro Net ou pelo portal\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/tvnativoos.com.br\/wfe\/\">tvnativoos.com.br<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dramaturgo havia sido internado na UTI do Hospital das Cl\u00ednicas desde a manh\u00e3 desta ter\u00e7a, ap\u00f3s sofrer queimaduras devido a um inc\u00eandio em seu apartamento Ao completar 80 anos, em 30 de mar\u00e7o de 2017, o diretor&nbsp;Jos\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa&nbsp;sentenciou categ\u00f3rico que n\u00e3o queria mais nada para si mesmo, estava satisfeito em sua individualidade. 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